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Textos
O Segredo de Vinícius
Vinícius era sempre expulso de sala. E sua mãe toda a vida reclamava: meu filho, você não tem caderno, não faz os deveres, veja só, desenhos e mais desenhos! Ela gritava enquanto apontava para as folhas inteiramente preenchidas pelo garoto com traços exatos, curvas pefeitas e milhares de truques de perspectiva.
Ninguém parecia ligar para a qualidade dos desenhos de Vinícius: focavam-se nos desvios, sim, nos desvios de comportamento, como sempre faziam. Uma criança não pode se afastar dos padrões estabelecidos para a sua idade, precisa aprender da exata mesma maneira que seus colegas de escola ou será considerada um objeto estranho, uma fruta podre capaz de contaminar toda uma sexta de prodígios.
O que ninguém sabia era que Vinícius guardava um segredo: não via os traços da mesma maneira que as outras pessoas. Cada linha de um desenho para ele continha informações, ou melhor, um mundo que se abria em sua frente; os traços eram a chave para a sua memória, faziam-no reviver os momentos de modo muito mais intenso do que com qualquer outro tipo de anotação. Diante de uma imagem, Vinícius lembrava-se de tudo, Vinícius sabia. E, com as informações, criava e registrava o mundo por códigos secretos que somente ele podia ler. Mal sabiam os professores que, ao fazer desenhos mais cheios de detalhes, ele desenvolvia teorias tão complexas que só podiam ser codificadas em traços, curvas e imagens; não havia palavras que pudessem explicá-las, a lógica não as abrangia.
Aos poucos, Vinícius se adaptou, aprendeu a escrever longas dissertações em vez de resumir tudo em uns poucos traços. Sabia que precisava jogar de acordo com as regras da sociedade se quisesse sobreviver: tivera uma infância conturbada, marcada pela violência social. Os meninos de sua rua caçoavam dele, os pais e professores não conseguiam o compreender e, por isso, consideravam-no inapto.
Todos eles, entretanto, estavam enganados. Vinícius era muito melhor do que eles, sabia de coisas que eles sequer imaginavam. Com o passar dos anos, o menino cresceu e aprendeu a usar o seu dom em benefício próprio. A única vez que teve dúvidas na vida foi quando teve de decidir entre publicidade e arquitetura.
No final das contas, tornou-se arquiteto: imaginou que poderia trazer o bem-estar às pessoas utilizando o seu dom. E realmente conseguiu. Por muitos anos, projetou prédios magníficos, colocou em cada traço das plantas que desenhava secretas mensagens de sucesso e felicidade. Quem morava em suas construções tinha sempre uma vida boa, sem estresse, sem inveja, sem grande parte das doenças que nos impõe a convivência nas grandes metrópoles.
Mas a vida nunca fora fácil para Vinícius, e não seria agora que ele poderia finalmente relaxar. Assim que terminou a construção de seu décimo prédio, veio a notícia: ele estava sob investigação. A sociedade inteira estava em alvoroço. Como podiam as pessoas que moravam nos prédios projetados por ele viver de maneira tão feliz? O que ele fazia para que isso pudesse acontecer?
As pessoas ficaram com medo, pois é assim que acontece, nós temos medo daquilo que não conseguimos compreender. E o medo nos torna estúpidos, arrogantes. Acusaram Vinícius de bruxaria, sim, muitos anos após a inquisição tal punição voltou a ser considerada. Não havia outra explicação. Só poderia ser algum tipo de poder maligno que tornava as pessoas tão felizes; tinha de ser algum tipo de ilusão.
E foi assim que, aos 29 anos, Vinícius teve decretado o seu fim: foi condenado a queimar na fogueira. Quem sabe não teria se saído melhor se tivesse optado pela publicidade?
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Leonardo Schabbach |
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Publicado em 10/11/2009 às 15h46
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